14.4.13







A História é uma ciência que demora a fazer

Luís Reis Torgal na apresentação da obra de Malheiro da Silva sobre Sidónio Pais em 21 de Junho de 2006

     A solenidade da História não pode ser confundida com a vulgaridade da historiografia. É como a beleza feminina, existe a serena e a grosseira. 
     O mesmo acontece com o romance histórico, mas aí é mais fácil distinguir a majestade de um Pêndulo de Foucault da banalidade de uma qualquer historieta passada no século XVI ou no Egipto Antigo. No caso da ficção histórica, com efeito, não basta conhecer metodologias de investigação, também se requer talento... literário.
     A razão por que a História demora a ser escrita deve-se ao facto de ela exigir reflexão, ao passo que a historiografia quase só requer a localização e cópia de documentos; ou seja, a primeira é hermenêutica e a segunda é apenas heurística (no caso português, quase sempre entendida de modo básico, pois nem sequer existe uma estratégia de busca previamente gizada).
     É evidente que nenhuma delas existe sem a outra. Achar o documento, porém, é somente "descobrir" o bloco de pedra que pode "conter" a Pietá, ao passo que a reflexão é a certeza que a Pietá está mesmo lá, e só precisa do génio do escultor para a "arrancar" do pedregulho.

14-04-2013

18.3.11


LICENCIATURA DE LÍNGUAS E LITERATURAS MODERNAS
ANOS LECTIVOS DE 1982-83 A 1990-1991

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Iniciei a minha actividade docente na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa no ano lectivo de 1982-1983. Pertencia, então, ao Departamento de Estudos Alemães e era assistente estagiário da Professora Doutora Yvette Kace Centeno. Durante vários anos, até ao ano lectivo de 1990-1991, leccionei duas disciplinas (História das Ideias e Problemas da Cultura Portuguesa) aos alunos das três ou quatro variantes então existentes na licenciatura de Línguas e Literaturas Modernas.

Nessa altura os sistemas informáticos estavam no seu início e ninguém tinha e-mail próprio. Por essa e outras razões fui perdendo o contacto com alguns milhares de ex-alunos com os quais gostaria de voltar a contactar, embora sabendo que são hoje, na sua maioria, pessoas atarefadas que têm entre quarenta e cinquenta anos de idade (eu tenho cinquenta e cinco) e já não se lembram bem do Manuel Filipe Canaveira.

Mas talvez seja possível contactar com alguns (e quem sabe se a partir destes não ficarei a saber de outros e mais outros). Ficaríamos com os e-mails uns dos outros e quem sabe se isso não poderia ser útil para tantos de nós, que, em dias já longínquos, partilhámos a mesma sala de aula naqueles velhos edifícios castrenses da Avenidade Berna.

Seria um momento para recordar nomes e episódios desses doces anos em que se via muita esperança nos olhos dos jovens docentes e alunos universitários.



MANUEL FILIPE CANAVEIRA

3.6.10


O PRÉMIO
(de investigação em contexto universitário)

Já chegou a Portugal a “estratégia” neoliberal de premiar as dissertações de novos investigadores universitários.

Certas entidades, criadas para desenvolverem políticas económicas e sociais que facilitem a estabilização do sistema mundial em afirmação desde 1981 - e que agora se acha, pensam os seus admiradores, em inevitável (porque cíclica) crise de crescimento – usam o expediente do prémio de investigação em contexto universitário, para delinearem estratégias de condução das actividades económicas em determinado sentido e visando objectivos concretos, que todos os que vivemos nos últimos quinze anos neste “mundo em transformação” sabemos bem quais são. No caso vertente dos prémios de investigação em contexto universitário o objectivo mediato é o de criar um conjunto de condições favoráveis a um mais efectivo controlo da orientação ideológica/financeira da investigação científica e tecnológica que "merece" apoio.

A estratégia é simples. Escolhem-se os neófitos admiradores do sistema de gestão universitária em processo de implantação, analisa-se uma tese por eles recentemente escrita, transforma-se esta num livro incontornável dos novos saberes - para isso basta ter correligionários no júrí, que devem ser a maioria mas não a totalidade (porque é prudente manter as aparências) – e, num ápice, consagra-se não uma vida de investigação mas antes se designa quem terá direito a ela no precário caminho da carreira docente universitária que o novo ECDU (Estatuto da Carreira Docente Universitária) juridicamente delineou e agora se percorre desmatando terreno virgem. Nestas fases de desbravamento é sempre avisado que alguns avancem com mais segurança do que outros; não é verdade?

A Sociologia das Organizações tem estudado nas últimas décadas a importância desta estratégia de fabricação de génios para assegurar a operacionalidade do novo sistema de gestão universitária actualmente em fase de dominação (que se inspira nos processos de branding empresarial). Nesta nova etapa visa-se convencer todos os universitários do carácter intrinsecamente justo do novo tipo de gestão (na anterior, a da invasão, marcada pela mudança inopinada do quadro jurídico existente, criaram-se derrotados que urge recuperar, persuadindo-os de que estavam equivocados sobre a justeza do processo ):

External recognition may bring internal rewards. The comments of a scientist’s wife, who was herself an academic illustrate the faculty’s tendency to value external rewards. She proudly told a friend that when external reviewers reported about her husband John’s department, they said how lucky Wannabe was to have him on its faculty. On another occasion, she noted that when they were younger, several men in John’s department had competed with one another for external recognition and so for the internal goodies that external recognition might sometimes bring, including merit raises.

[Gaye TUCHMAN, Wannabe U: Inside the Corporate University, Cap. 6º, Localização 1642 – edição electrónica Kindle]

A estes prémios de investigação em contexto universitário não lhes ligo peva, porque vejo neles uma estratégia de gerenciamento da carreira no mercado do Ensino Superior, atitude que até talvez seja legítima, porque é humano querer obter a tenure. Contudo, em minha opinião, o genuíno reconhecimento externo ganha-se ao longo de uma vida e faz-se por outras vias, que nada têm a ver com marketing (distribuição e venda da mercadoria)

Manuel Filipe Canaveira

24.11.09





Contemptus Mundi


Qual anão ao ombro de um gigante, lembrando Bernardo de Chartres, assim me coloco eu quando ouço falar de George Steiner. Não há nada a fazer, após ler as suas obras guardo um silêncio profundo e, mesmo quando tropeço, aqui ou além, numa citação sua, por pequena que seja (às vezes uma simples frase), experimento uma paz interior que julgo estar próxima de uma aparência de felicidade que só o prazer intelectual pode dar em tempos de pequenez.


Desta vez foi um passo do prefácio do livro Depois de Babel que me convenceu, direi absolutamente, que neste novo paradigma universitário concebido para vender cátedras a pataco com a consciência tranquila (apenas porque os estatutos o legitimam), o melhor é o desdém por algo que em breve deixará de honrar, como por vezes ainda sucedia nos últimos anos. A Cátedra invisível vive no trabalho sólido, tudo o mais são "catedrilhas" obtidas com salamaleques cortesãos impostos pelas precedências e ritos doutorais, já esvaziados de sentido num leilão em que os licitadores são os apaniguados das fundações que agrilhoaram o SABER em centenas de formulários irrespondíveis para quem possua uma ideia, ainda que longínqua, de honestidade intelectual.

Nessa época, eu estava cada vez mais marginalizado, para não dizer isolado, no interior da comunidade universitária. O que não constitui necessariamente uma desvantagem. Nos nossos dias, uma cátedra na universidade, a aprovação dos pares, os auxílios e os louros que isso proporciona são com frequência sintomas de oportunismo e de conformismo medíocre. Um certo grau de exclusão, de isolamento forçado, pode ser uma das condições de um trabalho sólido (...) Nas humanidades, nas disciplinas do discurso intuitivo [sublinhado meu], as comissões, os colóquios e outros circuitos de conferências são um verdadeiro flagelo. Não há nada que seja mais ridículo que a litania dos colegas e dos patrocinadores desfiada nas notas de rodapé de agradecimentos de publicações insignificantes.

[Steiner, Depois de Babel, citado por José Manuel dos Santos, Expresso de 21 de Novembro de 2009, suplemento Actual, crónica "impressão Digital, p. 4]

Manuel Filipe Canaveira

19.10.09



SILÊNCIO
Para os que andam a vasculhar este blog em busca de uma frase irada ou de um lamento, direi apenas duas coisas: primeiro, a ira não convém a um académico, cuja profissão pede o predomínio da razão sobre a paixão; segundo, resulta vergonhoso para um universitário suscitar a compaixão dos seus pares com constantes jeremíadas.
Sobre o caminho percorrido ou o balanço do deve e haver de benfeitorias ou malfeitorias, é preferível o silêncio, seguindo o exemplo de Corneille quando lhe lembravam o seu defunto protector/ofensor Cardeal Richelieu:

Qu’on parle mal ou bien du fameux cardinal
Ma prose ni mes vers n’en diront jamais rien
Il m’a fait trop de bien pour en dire du mal,
Il m’a fait trop de mal pour en dire du bien
[Pierre Corneille, 1653]


Manuel Filipe Canaveira

13.6.09


HONRA

A defesa da Honra quando é entendida como uma sucessão de imposições sobre os outros, mesmo que estes sejam de jure nossos subordinados, torna-se uma causa de desordem e de excessos que fragiliza as organizações e, num sentido mais amplo, a ordenação do todo social.
Ao contrário, quando entendemos a Honra não como uma máscara do nosso egocentrismo exacerbado, mas sim como uma forma de combate à arbitrariedade, promovemos o equilíbrio perdido e, embora parecendo que momentaneamente estamos a subverter a ordem estabelecida, na verdade o que fazemos é restaurá-la nos seus devidos termos.
É por isso que a cortesania versalhesca antecedeu a soberania popular, a qual, por sua vez, ainda que jacobina na prática, era, na sua essência, a base segura da soberania nacional, como o demonstraram implicitamente Constant, Collard, Guizot e Silvestre Pinheiro Ferreira.

Facteur de désordre et d’excès, l’honneur peut être aussi composante d’un équilibre, d’une harmonie dans les rapports humains. C’est ce que signifiait Théophraste Renaudot, cité au début de cet article: Le point d’honneur n’est autre chose qu’un désir de “nous faire croire tels que nous sommes”. C’est cette facade classique de l’honneur que décrivent Descartes et Montesquieu, dans les relations interindviduelles et dans le système politique.
[François BILLACOIS, Flambée baroque et braises classiques, in L’honneur. Image de soi ou don de soi un idéal équivoque, dirigido por Marie Gautheron, col. Série Morales, nº 3, Paris 1991, p. 74.]

MANUEL FILIPE CANAVEIRA

5.5.09


Vejo elevar a ideia do direito de superioridade da inteligência culta até ao convencimento do direito de absolvição, do esquecimento e do desprezo do justo e do injusto. Vejo desprezar tudo quanto tinha a sanção atrasadora, mas também conservadora do tempo, até ao ponto de ver esquecida a velha natureza humana, imutável no meio das mudanças do tempo.
Procurei homens civilizados pela ciência; e vou encontrá-los asselvajados pela civilização, pretendendo quase pela força da inteligência o que outrora conseguia a força bruta. Do feudalismo intelectual das escolas superiores resta-nos apelar para as comunas que se chamam escolas primárias.


[D. Pedro V, Sobre a Escola Politécnica, manuscrito da Biblioteca da Ajuda datado de 5 de Junho de 1858.]



O lamento de D. Pedro V, que o povo cognominou de O muito Amado, assenta como uma luva ao processo de tomada de poder pelos "bolonheses" nas universidades europeias em geral e, em particular, nas portuguesas, onde tudo acaba por ser muito mais triste, porque a ousadia dos oportunistas é directamente proporcional à falta de coragem cívica que caracteriza os portugueses em geral, desde sempre mais confiantes na eficácia da sujeição e do compadrio quando se trata de obter benefícios pessoais, sejam eles lícitos ou não.



Manuel Filipe Canaveira

3.5.09


DIA DA MÃE DE 3 de Maio de 2009

Numa missiva enviada à sua mãe em 28 de Maio de 1946, Adolfo Casais Monteiro escreve a dado passo:

Começo a sentir, com efeito, que nem a minha coragem é suficiente para aguentar isto. E eu tenho conseguido suportar estes 20 anos de tirania, de miséria moral, de perseguiçäo, com uma coragem tanto maior quanto tenho um imenso desprezo por isto [refere-se a Portugal]. Mas começo a näo ter forças. Há momentos em que tenho vontade física de cuspir nas pessoas, de pegar num chicote, em que chego a näo suportar a presença de ninguém. Isto é um país feio, gente feia, almas feias - dá vómitos.

Se eu hoje escrevesse uma carta à minha mãe, confesso que plagiava este trecho.

22.10.08


Parece claro que fomos demasiado precipitados ao declarar extintas certas profissões com as quais muitos de nós ainda ainda conviveram na tenra idade. Mas eis que a crise nos traz de volta os homens anúncio, gente que, como costumo dizer com “sabor” a século XVIII, anda “à ganhuça”. Os governos, é claro, não gostam de os ver nas ruas de Madrid ou de Londres, porque, no fim de contas, eles são o sinal mais visível do descalabro neoliberal que avassalou o Ocidente nos últimos trinta anos.
Eu aprecio-os; não que eu quisesse ser um deles ou viver os seus dramas íntimos de falhados e desiludidos, mas porque acho que dão cor às cidades nos dias de nevoeiro que cheiram a castanhas assadas. Gostava que deixassem de ser o que são por terem encontrado melhor modo de vida, mas, no entretanto, acho preferível fazerem o que fazem em vez de andarem a praticar as malvadezas que degradam as sociedades urbanas.
Entre as profissões extintas que povoam o "palácio" da minha memória pessoal, está a vendedora de queijos que entrava na “lisboetíssima” rua da minha infância a apregoar, estridentemente, há queijo saloio. Também me lembro do velhote com a sua carroça puxada por um burro a quem a minha mãe comprava os legumes, ou da leiteira com o cântaro que vertia o leite no fervedor que eu segurava. Aquele que eu mais admirava, para ser franco, era o ardina, o qual, com destreza admirável, conseguia atirar o jornal dobrado de forma engenhosa para as varandas dos segundos e terceiros andares.
Saudades; saudades a sério, tenho dos saltimbancos que na pacata rua dos Castelinhos (freguesia da Pena), estendiam o largo pano preto e cabriolavam sobre ele. O homem que engolia petróleo e lançava da boca para fora – qual dragão – labaredas de fogo, ainda me aparece em sonhos.
Gravados para sempre também ficaram os robertos da praia da Ericeira. Corríamos para ver aquela traulitada toda entre forcado e touro, rindo a bom rir. Mais tarde, ao longo de toda a década de setenta, tentei imitá-los e, com a minha troupe, palmilhámos, com a barraca de fantoches às costas, os jardins e os adros das cidades e aldeias de Portugal, para contar às crianças pobres e remediadas a história da carochinha e da princesa prisioneira.
Foi nesses anos que o povo português me entrou no coração, desalojando para sempre a reverência às chamadas elites, que a minha mãe, pacientemente, sempre me tentou incutir.
MANUEL FILIPE CANAVEIRA

16.10.08


BELEZA (simplicidade)/ ESTÉTICA (engenho)

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico,
um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

[Cesário VERDE, O Livro de Cesário Verde, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1995.]

A este poema de Cesário chamo eu belo, porque só consigo encontrar beleza nas coisas simples e vitais. Um campo de papoulas num dia primaveril é simplesmente belo. Nisso concordamos todos, ricos e pobres, facistas e comunistas, cristãos ou muçulmanos, pretos e brancos, homens e mulheres.

Uma jovem com dois seios a lembrar duas rolas é de uma exuberante beleza, porque as rolas são aves simpáticas, apesar da sua rouquidão.

Ao pastor pensativo sentado no meio do negrume de um campo estéril, chamo eu estética, porque não há pastores assim tão políticos, capazes de simbolizarem uma ideologia. Os pastores são amigos dos faunos, não dos tiranos.

Estética lembra construção de um modelo de beleza; não é, portanto, consensual, razão porque não existe Estética, mas sim estéticas, belas ou horrorosas consoante as ideologias. É por isso que muitos encontram beleza nos quadros lúgubres do mussoliniano Sironi; outros tantos dizem encontrá-la nos telas lutuosas do pacifista Otto Dix.

A intenção dos intelectuais fascistas de injectar um dimensão “moral” ou “espiritual” nos debates modernistas sobre as relações entre a política e a estética, ficou bem clara no debate sobre o romance. Num artigo aparecido na Crítica fascista, Attilio Riccio argumentava que a vião global permitida pelo romance possibilitava aos autores apresentarem a vida como qualquer coisa “de desejado e de construído”, como acção, em vez de simples espectáculo.” Sendo assim, o romance facilitaria a difusão de uma “nova atitude ética”, já que seria, ao contrário da novela e do fragmento literário, um bom veículo para o escritor promover um novo sistema de valores e de códigos de conduta.

In Ruth BEN-GHIAT, O Fascismo italiano e a estética da “Terceira Via”, in A Estética no Fascismo, Ed. João Sá da Costa, Lisboa 1997, p. 37.

As “terceiras vias” são sempre “esteticamente” duvidosas.


Iconografia - O Pastor de Mario Sironi sobre papoulas.

9.10.08


OS TEZINHOS E OS TEZÕES


Deitei-me ontem com o problemazinho da crise bancária, imaginando estratégias para convencer o meu gerente de conta a deixar-me tirar todo o dinheiro que lá tenho para o esconder debaixo do colchão, e acordei com o problema fracturante do casamento gay.
O meu amigo Juan e a sua mulher Lolita já me telefonaram há uns meses para me dizerem que o Zapatero quando viu a crise do imobiliário a cair-lhe em cima (depois de anos a fio em que os governantes andaram a tentar convencê-los que a Espanha já era tão importante como a França e não tardava a igualar a Alemanha). logo se apressou a arranjar meia dúzia de temas fracturantezinhos para esconder os fracturantezões. Como nós não precisamos de uma lei da memória, porque, ao contrário de Franco, Salazar nunca matou ninguém oficialmente (nem Humberto Delgado), temos de nos conformar e cingirmo-nos ao casamento gay.
Este tema é, sem dúvida, fracturantezão; direi mesmo mais, pensando no discurso do Sr. Presidente da República e no mano Dupont do Tintin, não podemos ILUDIR este PROBLEMÃO, porque ele é sem dúvida FRACTURANTEZÃO.
Se eu fosse um homossexual inteligente e crítico do governo Sócrates, e ainda por cima não tivesse apanhado - por mandriice minha - um dos milhares de empregos que ele diz que criou, era capaz de lhe dizer que o meu probleminha fracturantezinho era saber como resolver, de uma forma mais célere e competitiva, a questão da distribuição da Sopa do Sidónio lá na Almirante Reis.
Mas eu sou heterossexual e, por isso, juntamente com todos os cidadãos homo e hetero que andam atentos, tenho que resolver primeiro os meus inúmeros problemas fracturantezinhos, para me manter vivo e de boa saúde, porque sem isso, não me aventuro a discutir o PROBLEMÃO FRACTURANTEZÃO do casamento gay.
Cá em casa a mulher já me perguntou se o problema do nosso consórcio de periferia lisboeta tinha alguma coisa a ver com o facto de sermos ambos heterossexuais. Eu respondi-lhe; olha, primeiro deixa-me examinar o extracto do banco para ver se eu consigo chegar até ao dia do pagamento do próximo ordenado sem ter de entrar no terceiro mês adiantado. Não é por nada, mas o imposto que o governo me cobra pelo segundo ordenado, mais o imposto de selo, deixa-me possesso.
Depois de me ouvir, ela disparou amuada. És um cretino, vens-me com um probleminha fracturantezinho quando eu estava a falar de um PROBLEMÃO FRACTURANTEZÃO. Eu, que estava distraído, só ouvi as duas últimas sílabas e, entusiasmado, demonstrei com a ternura dos cinquenta que o magno problema do Sócrates nada tem a ver com a gente.

Manuel Filipe Canaveira

8.7.08


O que admira são os vestígios de dignidade, de aprumo, enfim, deste indivíduo que o “horror económico” pôs à margem por qualquer motivo de ordem estatística e que, em dias passados, teve talvez a sua dignidade humana reconhecida e os seus direitos civis e humanos respeitados.
Os pertences estão no meio da rua, mas, com os diachos, a mãe ensinou-lhe a arrumar o quarto, incutindo-lhe a ideia de que uma pessoa não deve viver numa pocilga.
Além disso o que diriam os turistas, os empregados, os patrões… Em suma, que ideia fariam dele todos os “incluídos” que passam na mais elegante avenida de Lisboa, se vissem tudo em desalinho. Sim, porque afinal este banco é, no fim de contas, a “sua casa”, e o lar de cada um é, sempre, o espelho da sua alma.
O “dono” desta “vivenda” com jardim em condomínio aberto é, de facto, um verdadeiro príncipe, de fazer inveja aos que julgam que o são.
Não tenham dúvidas.

Essa pobreza alastrante, tão integrada em certas paisagens, pode invadir as nossas regiões sofisticadas? Uma “inconveniência” assim poderá ser possível numa sociedade tão pouco inocente, tão informada, dotada de aparelhos críticos refinados, de ciências sociais rogorosas, de um gesto pronunciado pela análise da sua própria história? Mas não se tornou ela também, por isso mesmo, por saturação, por cinismo, desilusão, às vezes por convicção, frequentemente por negligência, pouco propensa aos olhares perscrutantes, muito pouco lúcida quanto à urgência do uso da lucidez?

[Viviane FORRESTER, O horror económico, Ed. Terramar, col. Colecção 2001, 3ª ed., Lisboa 1997, p. 47.]

12.5.08


CASTRATI

Um desses encantadores “meninos” licenciados em economia ou gestão que usam lacinho em vez de gravata (para se distinguirem dos bancários sem serem banqueiros), que ora rondam os cinquenta anos e estão supinamente instalados na vida (programas televisivos+colaboração em periódicos editados por bancos+jornalismo ao serviço do empresariado+*+*+*+*+ são bastante “compensadores”) escrevia há uns meses num dos números da revista do Montepio Geral que a grande desgraça do desemprego dos licenciados (facto comum em todas os países ocidentais já há muitos anos), se devia à estupidez dos jovens (e dos seus progenitores) por insistirem em tirar cursos de ciências humanas, os quais, por definição, são uma garantia para a miséria económica do futuro Dr.
Como sempre, subentende-se que esses cursos são os de Sociologia, Antropologia ou outra coisa do género, que se ministram nas faculdades de letras, essa brigada do reumático que as universidades, por tradição, têm de ter. O certo é que são sempre as pobres da História e da Filosofia que merecem referência preto no branco, escamoteando a situação precaríssima das Ciências da Comunicação, para não melindrar os pouquíssimos “colegas” jornalistas que chegaram ao enorme privilégio de passarem recibos verdes. Sobre os inúmeros cursos de economia e gestão nada se diz, para não lembrar aos jovens “espertos” (e aos seus progenitores) que nos últimos anos os licenciados nestas ciências pseudo-exactas (recusam o estatuto das humanas mas estão longe de serem naturais) andam para aí a preencher os IRS dos velhinhos que têm horror à Internet e medo ancestral das repartições de finanças.
Esta ideia de orientar as escolhas dos jovens com promessas miríficas de um futuro radioso (condomínio fechado, piscina privada, topo de gama, vista sobre o Lisbon sky line…) fazem-me lembrar os pobres castrados setecentistas. Os rapazinhos de voz angelical, uma vez chegados à idade púbere, perdiam a maviosidade e, com ela, um futuro nas cortes dos príncipes e eclesiásticos. Num momento, só por causa da maldita puberdade, os sonhos de uma vida faustosa frustravam-se e, ao jovem, restava a vida de trabalho duro que, uns anos depois, o transformariam num camponês digno de ser retratado pelos irmãos Le Nain.
Mas, se fizessem uma pequena incisão nos testículos que impedisse a inconveniente afirmação da sua masculinidade, teriam, com sofrimento passageiro, acesso à felicidade de arranjarem um bom emprego a divertir os poderosos deste mundo. Muitos adolescentes, como Haydn, fugiram a sete pés do prestimoso cirurgião, mas milhares de outros deixaram-se castrar aos longo de três séculos sem, contudo, obterem a recompensa prometida; ou seja, por cada Farinelli (que até foi infeliz, apesar do êxito), existiram milhares de falhados cujo o nome a História não registou.

“Necessitas suavizar-te por intermédio de uma pequena operação que garantirá a delicadeza da tua compleição durante muitos anos e a beleza da tua voz para o resto da tua vida… desfrutando da glória depois de este pequeno assunto que te trará tanta fortuna”. O pequeno assunto que propunha Charles de Saint-Evremond ao pequeno Dery em 1687 era nada mais nada menos que a castração voluntária dos seus genitais. Não sabemos se Dery acabou aceitando, mas na Itália dos séculos XVII e XVIII praticaram-se mais de 4000 castrações anuais de rapazes com sete a nove anos que tinham demonstrado certas aptidões musicais, com o objectivo de preservar a sua voz infantil e obter os tons agudos que requeriam as composições musicais do momento. No entanto, só 10% desses rapazes conseguiram ganhar a vida com a sua voz e apenas 1% foram famosos.

[José Ángel MONTAÑES, Los castrati, (Histórias Médicas), publicado no El Pais (Salud) de 10 de Maio de 2008, p. 19]

Moral da história: faz aquilo que realmente desejas e não te deixes castrar. Nenhum guru da economia sabe o que se vai passar daqui a vinte anos. Também não lhes interessa, porque a maioria deles já estarão mortos ou reformados. Percebes?

Manuel Filipe Canaveira

11.5.08

TARTESSOS
A decadência dos regimes resulta sempre de causas endógenas que suscitam as exógenas. A decadência da democracia portuguesa, tal como ela se desenvolveu desde a nossa integração europeia (e não desde o 25 de Abril ou após o 25 de Novembro, como erroneamente se diz para mascarar a questão), é fruto do apodrecimento do “bloco central de interesses” que o Partido Socialista e o PPD/PSD arquitectaram desde o início da década de 80.
O viciamento da competição, seja ela desportiva, económica, cultural, etc., resulta da teia laboriosamente entretecida pelos optimates dos dois partidos reinantes; Mira Amaral, José Penedos ou Pina Moura são apenas os nomes mais conhecidos de um grupo relativamente numeroso (para o país pobre que somos) de gente que soube aproveitar as oportunidades que a situação lhes proporcionou.
O rotativismo, que, por questões de controlo e eficácia política, também interessa à União Europeia, não é, porém, especificamente europeu, mas sim genuinamente português. Prova-o o último quartel de oitocentos, que conduziu à agonia da monarquia por intermédio do aviltamento, na prática, do regime constitucional, já então incapaz de respeitar o espírito de um só artigo essencial da Carta Constitucional de 1826, como, aliás, hoje sucede com a Constituição de 1976, até nas suas versões revistas.
Liberalismo formal desembocou em radicalismo republicano e na manha salazarista, disfarçada de estado corporativo industrial contido nos justos limites ditados pela mente patriarcalista de um astuto aldeão. Democracia formal em plena crise não sei o que dará, mas boa coisa não será, como já se percebe.
No fundo, o problema português é que os regimes, uma vez implantados, não mudam quando já é evidente a sua inoperância; pelo contrário, apodrecem lentamente e morrem de inanidade.
O que subsiste para além da sua época torna-se anacrónico e acaba, um dia, por ser impiedosamente varrido do palco da História. Foi assim que desapareceu Tartessos há dois mil e quinhentos anos e nós, historiadores, sabemos bem que os assaltos às cidadelas só são possíveis porque estas, carcomidas por dentro, já não são mais do que uma simples aparência do que em tempos foram:

Resta apenas uma explicação lógica para a desaparição de Tartessos. A sua decadência interior. Provavelmente várias causas contribuíram para a debilitação do seu poder centralizado. É possível que o próprio reinado de Argantonio, devido à sua enorme duração, tenha desencadeado o processo de dissolução do poder. Costuma ser um processo lento em que se constata o anquilosamento das estruturas incapazes de renovar-se ao mesmo tempo que as exigências económicas, requeridas pela evolução da sociedade. A História oferece-nos casos notáveis em que a grande duração de um reinado marca o início de uma grande decadência.

[Maluquer de Motes, citado em Protohistoria de la Península Ibérica, Ed. Editorial Ariel, col. Ariel Historia, coordenação Martín Almagro e outros, Barcelona 2006, pp. 177-178]

No nosso estado actual, mais vale que esse dia chegue depressa. Não acham?

9.5.08


Muitos confundem PRUDÊNCIA com tibieza e vice-versa. É difícil perceber porquê, pois são tão distintas uma da outra que é impossível confundí-las.:
A tibieza é reverência pelo poder estabelecido, é indecisão, medo, ansiedade, desnorte, estupidez, fragilidade de princípios.
A Prudência é o contrario de tudo isso somada ao sentido da medida, porque se este faltar, então o que existe é fúria, fanatismo, insanidade.
Luciani, que foi o “martirizado” papa João Paulo I, morreu não por ser imprudente, mas por falta de tibieza. A sua concepção dinâmica de Prudência foi a causa da sua desdita, sem dúvida, não a sua ousadia.
Dizia o Pontífice Romano que a virtude da Prudência só o é se o resultado da poderação não for um encolher de ombros (indiferença), mas sim a resolução firme dos problemas e conflitos que a vida torna inevitáveis.

Concordo que a prudência deve ser dinâmica e impelir as pessoas à acção. Mas há três fases a considerar: deliberação, decisão e execução.
Deliberação significa procurar os meios que levam ao fim. Faz-se na base da reflexão, de conselhos que se pediram, de um exame cuidadoso.
Decisão significa, depois de se examinarem os vários métodos posíveis, optar por um deles… Prudência não é um eterno hesitar, suspendendo tudo e dilacerando a mente de incertea; também não é esperar para escolher o melhor. Diz-se que a política é a arte do possível e de certo modo é verdade.
Execução é a mais importante das três: prudência, ligada à força, evita o desânimo em face das dificuldade e impedimentos. É este o momento em que um homem prova ser dirigente e guia.


[David YALLOP, Em nome de Deus. A verdadeira investigação sobre a morte do papa João Paulo I, Ed. Booket, nº 5006 (Divulgação), Lisboa 2008, pp. 125-126.]

Neste Portugal de 2008 existem muito tíbios que andam a fingir que são prudentes. Essa é uma das causas do imobilismo que sufoca e domestica a Democracia, que a torna uma caricatura dela mesma.

Manuel Filipe Canaveira

18.4.07

O APRENDIZ
O baixa produtividade da economia portuguesa é um problema das elites, não do povo. O Zé Povinho às vezes até trabalha demasiado, mas trabalha mal, quase sempre por falta de direcção e capacidade de decisão dos que o dirigem.
Sempre tivemos, infelizmente, uma elite manhosa, que gosta muito de títulos e pouco de aprender.
Tendo em vista esta "deficiência estrutural" do nosso sistema produtivo, proponho a adopção imediata da seguinte medida: a partir de agora, um português ao nascer deve possuir desde logo o título académico de Professor Catedrático de nomeação definitiva. O desafio que lhe é lançado é o de conseguir, com esforço e mérito, ir perdendo títulos académicos progressivamente. Quando souber ler passa a professor associado, ao aprender inglês ou francês é despromovido para a categoria de professor auxiliar, e assim por diante, até ter a honra de ser o Sr. fulano de tal.
Os aprendizes de doutor e de engenheiro tenderiam a desaparecer, é certo, mas a produtividade aumentaria muito.

se nua sandice encalha
dou-o ò demo que é testudo
presume de homem sisudo
de nada sabe migalha
e anda enxovalhando tudo

D. Francisco Manuel de Melo, O Fidalgo Aprendiz (séc. XVII)

Manuel Filipe Canaveira

13.4.07

A Democracia é um assunto sério. O democrata genuíno é aquele que aceita o veredicto popular livremente expresso através do sufrágio directo, secreto e universal.
Aqueles que só arriscam auscultar a vontade do povo quando sabem de antemão que ela lhes será favorável só podem ser duas coisas; ou ditadores (Hitler chegou a chanceler através do voto e Salazar nunca receou as eleições presidenciais até aparecer a candidatura de Humberto Delgado), ou democratas de fachada.
Como é evidente, neste Ocidente neoliberal e globalizado as ditaduras dos anos trinta não têm grande futuro (apenas alimentam a retórica nacionalista de grupos minoritários), mas a DEMOCRACIA DE FACHADA já tem um presente de evidente sucesso.
Se houvesse um referendo em Portugal sobre o Tratado da União (já percebemos que não), eu votaria a favor e, estou em crer, a vitória seria do SIM, embora renhida (porque as ilusões dos anos oitenta e noventa esfumaram-se em Portugal em apenas seis anos). Contudo, apesar de tangencial, seria uma VITÓRIA FORTE, ao contrário da vitorinha pírrica que irá acontecer no dia em que os deputados do “establishment” se levantarem para aprovar, por maioria qualificadíssima, o novo Tratado da União.
Confesso, apesar de não desconhecer a necessidade urgente de proceder à reforma do sistema político da União Europeia, que preferia arriscar uma derrota, pois estes expedientes “democráticos” em breve farão perecer o ideal europeu que levou à assinatura do Tratado de Roma em 25 de Março de 1957.

É claro que todos estes problemas são difíceis de resolver e os conflitos não faltarão. Mas as crises que virão não serão mais difíceis do que aquelas que desde 1957 têm feito a história da construção europeia. Sabemos que todas foram superadas, não pela paixão – desejo de Europa- mas pela razão –necessidade de Europa. Com efeito, ao longo do tempo, cada um pode imaginar como seria difícil, para qualquer país, pôr-se à margem da União ou paralisá-la por largo tempo.

In Jean-Marie GAILLARD, Les grands jours de l’Europe (1950-2004), Ed. Perrin, col. Tempus, nº 59, Paris 2004, p. 135.

É isto que é necessário explicar ao povo português até 2009 e, depois, confiar no seu bom senso.
Manuel Filipe Canaveira

1.3.07


LEMBRAM-SE DO PORTUGAL DE SUCESSO?


As raízes do caos social em que estamos mergulhados estão nas práticas “normais” dos governantes e gestores portugueses dos anos “noventa”.
As contas paralelas dos partidos são hoje pagas com desemprego e exclusão social.
A vida política e económica portuguesa no declinar do século XX ainda será um dia objecto de estudo. Será uma “história” triste, pelo menos para as pessoas que não confundem uma sala de audiência dos tribunais com uma sala de espactáculos. Já Erasmo afirmava, na Civilidade Pueril, que a indumentária diz muito sobre a personalidade das pessoas.


19.12.06



NÃO COMENTAMOS
Assim reagiu José Sócrates quando instado pelos jornalistas a dar a sua opinião sobre o vigoroso ataque dirigido ao Banco Central Europeu por Ségolène Royal - que é ainda é só candidata e não presidente da República Francesa, facto que, reconheçamos, não a torna assim tão heroína quanto isso (Semanário SOL de 16/12/2006, Confidencial – Economia & Negócios, p. 7).
É certo que o homónimo ateniense, o grande SÓCRATES, teria dito mais, mas esse tinha a mania de comentar tudo, razão por que teve de levar aos lábios o cálice cicuta.
O “pequeno” Sócrates fez como todo o bom português, “fingiu-se de mula” e ficou silencioso (o SILÊNCIO é de ouro, ouvia eu dizer ao povoléu lá dos tempos do salazarismo). Evitou engolir o veneno, mas também perdeu a oportunidade de ficar nos anais nacionais, porque dos espertinhos não reza a HISTÓRIA (nem a de Portugal).
Mas, convenhamos, sempre agiu melhor do que os doutores Paulo Portas, José Ribeiro e Castro e José Miguel Júdice, que preferiram desejar aos jornalistas um FELIZ NATAL embrulhado em sorrisos mefistofélicos, atitude própria daqueles que não têm nada para dizer ou não sabem o que dizer. Ou será que andam armados em tacitistas e, quais príncipes barrocos de pacotilha, adoptaram a atitude da melifluidade cortesã numa república pós-autoritária que, para se assumir de vez como democrática, necessita de gente de outro género para a servir?

17.10.06


Assim se destrói a classe média (baixa) de um concelho da Grande Lisboa.
Obrigado SMAS (Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Sintra) por seres um "caso de sucesso". O que seria de nós se não fosses

Manuel Filipe Canaveira (Queluz)
17/10 /2006

30.6.06




O ILUSIONISTA
Venho dizer-te por que razão não pude estar lá no momento da apoteose. Sabes, conheço-me bem, sei que não consigo conter a revolta que me invade até às entranhas quando vejo a iniquidade premiada. No momento de te abraçar e congratular, estaria a ser desonesto, porque todos julgariam que eu felicitava o historiador, quando, na verdade, apenas estaria a APLAUDIR o extraordinário ilusionista que tu de facto és; melhor, que tu sempre foste.
Desta vez, porém, não me enganaste. Juro-te que, cinco minutos após teres começado a tua brilhantíssima representação, eu já estava a recordar aquela inolvidável aula de História de Portugal Medieval de há vinte e sete anos, em que tu, jovem cheio de segredos por nós todos insuspeitados, iniciaste a “conquista” de uma licenciatura brilhante e praticamente asseguraste o ingresso na carreira docente universitária. Desde esse dia, até eu, por norma sempre desconfiado dos génios precoces, me convenci de que o eras.
Depois veio o tempo das tuas fichas de leitura criteriosamente arrumadas num primoroso arquivo instalado numa sala do teu solar. Nesse momento até chegaste a enganar a minha namorada (hoje minha mulher), que vaticinou para ti uma brilhante carreira científica, daquelas que não cabem no exíguo rectângulo português e só podem terminar na Sorbonne ou em Oxford.
Não foi isso que sucedeu. Muitos dos teus ex-colegas, ex-amigos e novos colegas e novos amigos (porque os foste substituindo ao longo de uma vida de sucessivos espectáculos de ilusionismo) duvidavam já que algum dia viesses a doutorar-te, mas nenhum deles sequer imaginou que durante todos estes anos tu só estavas a amadurecer e a libertar-te da cientificidade da História. Deixaste todos boquiabertos, mudos de espanto, quando, dissimulando (talvez) humildade científica, anunciaste, "urbi et orbi", a tua condição de ARTISTA da História.
És o primeiro, justiça te seja feita. No decurso dos séculos muitos se serviram da História para alcançar objectivos políticos e religiosos, marimbando-se nesses meros detalhes metodológicos e críticos que desde Mabillon e Vico até aos nossos dias, sucessivas gerações de banais historiadores buscaram para conferir credibilidade científica ao seu labor historiográfico, mas nenhum se lembrou de invocar a nobreza da Arte. Claro que não cometes os erros crassos próprios da fase pré-científica; ou seja, não cais em generalizações excessivas ou, pior, em anacronismos puerís. Não ignoras as exigências do ofício de historiador (porque te foram ensinadas e tu as aprendeste), mas, por não seres um historiador como os demais, assimilaste e superaste essa traquitana toda que te coarcta a liberdade artística e declaraste-te um historiador do porvir, arauto de uma fase pós-científica que, para desgraça de todos os historiadores vulgares de hoje, incensará nos tempos futuros o historiador-artista.
És, por conseguinte, um precursor. Em nome desses amanhãs, arredaste todos os tabus universitários, declarando nulo e sem efeito o trabalho beneditino de buscar as fontes, verificar a sua autenticidade, avaliar o seu valor literário e documental... Nada disso, pegaste em documentos sobejamente conhecidos e escreveste textos sucintos que são, no fundo, a quinta-essência da tua larga reflexão sobre estes assuntos. Só quem atinge um tal grau de pureza, pode dar-se ao luxo de dispensar as sete ou oito centenas de notas que os historiadores banais costumam colocar nas suas fastidiosas teses.
Cumprida, com displicência, essa tirânica obrigação legal de “escrever” uma tese de doutoramento (triste resquício do espírito iluminista que acarinhou os sisudos cientistas em detrimento dos joviais "castrati"), passaste, enfim, à fase artística e, com uma perícia digna de um "metteur en scène", transformaste o estrado escolar num misto de púlpito seiscentista e de "collonade" versalhesca, entremeando frases dignas de um Bossuet com os salticos de um cortesão fútil e engraçado, daqueles que arrancava risinhos aos efebos das cortes setecentistas.
O espectáculo saiu perfeito, admito. Merecias a nota máxima, se o doutoramento fosse em representação. Mas não era. De facto, por muito que te custe, ainda era em História das Ideias. Escuso de te dizer que, para mim, historiador vulgar (daqueles que persistem nessa ideia peregrina de considerar a História uma ciência), acho que traíste a História e, talvez ainda pior, a tua própria condição de historiador.
Traição. Eis a palavra-chave do nosso mútuo desentendimento.
De facto, a História deixou de ser, como tal, uma disciplina literária. Não interpreta texto algum. O passado não é a colecção de factos humanos que a memória retém ou imagina, mas o conjunto daqueles que se podem deduzir dos vestígios concretos, materialmente impressos pelo homem na superfície da terra. A transmissão dos dados considerados significativos por meio de um discurso histórico não é arbitrária nem nos materiais que usa, nem na forma como os apresenta, nem na justificação da sua associação. A condição mesma do discurso é a sua credibilidade em função dos problemas da sociedade, isto é, dos problemas actuais do homem. Estes podem relativizar radicalmente a perenidade das suas informações ou propostas de solução. Mas dificilmente se pode imaginar uma validade baseada em critérios puramente lúdicos ou decorrentes de qualidades exclusivamente formais do discurso. Ora, sem se estabelecer como condição prévia a objectividade crítica dos dados e da sua associação em termos científicos, a História, tornada apenas narrativa, em nada difere da ficção. Com o defeito de, neste caso, infringir as regras do jogo, isto é, de negar o seu carácter de ficção.
In José MATTOSO, A História Arte ou Ciência, in A Escrita da História, Ed. Editorial Estampa, col. Imprensa Universitária, nº 67, Lisboa 1988, p. 38
MANUEL FILIPE CANAVEIRA
Junho de 2006

24.10.05


“Ad Sanctos”

Na Alta Idade Média a nobreza tinha o costume de inumar os seus membros junto aos santos. Depois de uma vida dissoluta e violenta, parecia-lhes vantajoso assegurar a intercessão desses homens e mulheres virtuosos (não raro vítimas da sua crueldade) para ultrapassar os obstáculos que necessariamente surgiriam no tribunal celeste, caso Jesus, em pose de Pantocrator, se mostrasse um juíz severo.
Esta união, após a morte, do "homem religioso" com o "homem militar" é forçada, porque na sua existência histórica sempre os caminhos de ambos, pelo menos no plano doutrinal, divergiram, embora existissem, ocasionalmente (de acordo com interesses meramente conjunturais), alianças vantajosas para ambos os lados. Contudo, no essencial, o ora et labora que norteou durante os sucessivos séculos o monaquismo medieval, nunca esteve em plena síntonia com o mundo violento dos arrivistas (em regra secundogénitos das grandes casas nobiliárquicas e, por esse motivo, afastados da sucessão dos bens paternos) que viam na guerra de saque uma oportunidade de enriquecimento e ascensão social.
O mesmo sucede hoje com a multidão que acorre à praça de São Pedro a exigir, democraticamente, entenda-se, a santificação de João Paulo II, conquanto seja desnecessário dizer que a elevação aos altares de uma figura tutelar do catolicismo não pode estar sujeita ao plebiscito dos crentes, realizado de um modo aclamatório que faz jus ao paradigma pagão da democracia dos "antigos".
Mesmo sem seguir os conselhos do putativo santo, que em matéria de moral, como diria o Padre António Vieira, andou a pregar aos peixes como o seu "futuro antecessor" Santo António, as multidões que o beijaram e abraçaram nos quatro cantos do planeta, sentem-se reconfortadas com a ideia de terem estado na presença de um santo.
Estes assomos de medievalismo num mundo globalizado dão que pensar, em particular sobre o rumo sinistro que o Ocidente está a ter desde o dia 11 de Setembro de 2001.

27.9.04



Lê-se e, à primeira, custa a acreditar. Mas, depois, percebe-se o resultado desta estatística, elaborada, decerto, por técnicos competentes que garantem a qualidade da informação contida nos folhetos de divulgação publicados pelas diferentes instituições comunitárias.

Refiro-me ao recente opúsculo intitulado Factos e números essenciais sobre a União Europeia, editado pela Comissão Europeia – Direcção-Geral Imprensa e Comunicação (Bruxelas 2004). Dois gráficos suscitaram a minha atenção; um, sobre o número de computadores pessoais por 100 habitantes em 2002; o outro, sobre o total de telemóveis pelo mesmo número de pessoas e em idêntico período.

Através deles fiquei a saber:

Em Espanha, 82% das pessoas possuem telemóvel; na Holanda apenas 74%

Em Espanha, 17% dos indivíduos têm um computador; na Holanda a cifra atinge os 43%.

O números são deveras curiosos, porque atestam uma das facetas da tal “mentalidade barroca” a que aludia Boaventura Sousa Santos num artigo recente (Visão, 9 de Setembro de 2004, p. 48). Como é óbvio, a estatística nada nos diz sobre a qualidade dos aparelhos em questão, mas eu, que sei um pouco de História, presumo que os holandeses não têm tantos telemóveis topo de gama como os espanhóis, enquanto estes não devem possuir computadores tão actualizados quanto aqueles.

Nem vale a pena inquirir -mas julgo que não será difícil adivinhar- quais os sites preferidos pelos cibernautas espanhóis e holandeses. Como é óbvio, também ninguém pode saber, por ser do domínio privado, as “razões” e “circunstâncias”que levam os holandeses e espanhóis a utilizarem o telemóvel. Suspeito, porém, que tanto num caso como noutro, não existam grandes similitudes.

Talvez esteja a ser preconceituoso, reconheço, mas não consigo deixar de imaginar a seguinte situação; se Rembrandt e Velázquez ressuscitassem, pedia-lhes para repintar, respectivamente, o quadro de Os síndicos do grémio de Tecidos (Rijksmuseum) e o retrato equestre do conde-duque de Olivares (Museu do Prado), só para ver o holandês colocar um computador sobre a mesa e o espanhol substituir o bastão por um telemóvel.

Representação desse engenho mecânico, que o homem barroco admira, é o relógio, que acrescenta a essa condição a da sua simbologia do tempo inexorável, assim juntando dois aspectos decisivos da Cultura barroca. Calderón faz do relógio imagem plena do maquinismo (De un castigo tres venganzas), e Bances Candano admira-o pela mesma razão. Outros exemplos de estima por inventos técnicos surgem em relação à Imprensa, à agulha de marear, à artilharia, etc. Já fizemos notar, no entanto, como a situação da sociedade espanhola, por serem nela asfixiados os interesses de novas classes, juntamente com suas novas actividades industriais, trouxe consigo um desvio da capacidade inovadora e, com ele, uma redução do gosto pelos artifícios às manifestações banais de uma curiosidade caprichosa. Não sei se a palavra "tracista", que na época se faz equivaler à de "engenheiro", traduz esse escasso nível do desenvolvimento técnico.

Seja como for, na mentalidade do espanhol da época barroca, encontra-se de um modo geral a satisfação suscitada por qualquer artifício, qualquer engenhosa invenção da arte humana que apareça como novidade.

In José Antonio MARAVALL, A cultura do barroco, Ed. Instituto Superior das Novas Profissões col. Estudo Geral, nº 8, Lisboa 1997, p. 312.

[1ª ed. espanhola - 1975]

13.8.04


Os banqueiros mundiais, que controlam o mundo globalizado de hoje por detrás dos reposteiros dos seus requintados gabinetes, deveriam atentar seriamente no significado da Sexta-Feira 13, dia azarado para os soberbos cavaleiros templários naquele já longínquo ano de 1307.
Nessa data, Jacques de Mollay e os seus sequazes perceberam a fragilidade do imenso tesouro que tinham acumulado à custa da agiotagem e das generosas comissões obtidas através de uma eficiente gestão de extensas propriedades fundiárias.
Enriqueceram de tal modo que, um dia, pensaram possuir poder económico capaz de amedrontar o rei de França e o próprio papa. Enganaram-se redondamente, porque o meio específico do exercício da soberania é a violência e não a astúcia da corrupção.
No limite, o poder político vê-se constrangido a romper a teia pacientemente urdida pelo poder económico para o dominar. E fá-lo sempre recorrendo à violência mais extrema, não hesitando em prender, torturar e, por fim, queimar em público, “espectáculo” com sucesso assegurado, pois nada agrada mais ao povoléu do que ver degradado, no patíbulo, quem o teve “na mão”

A ordem obteve a reputação de ser reservada e obcecada com rituais, e esta reputação, em conjunto com o enorme poder financeiro e militar dos Cavaleiros, foi provavelmente o motivo para a sua queda em 1307. A 13 de Outubro de 1307, uma sexta-feira (a origem da ideia de má sorte caindo numa sexta-feira 13), um número substancial de Cavaleiros do Templo em França foram presos por Filipe, O Belo de França. Muitos foram torturados e executados, e outros foram forçados a admitir que a ordem praticava actos heréticos [...]. O Papa Clemente V emitiu uma bula papal dissolvendo a ordem e, oficialmente, esta deixou de existir.

[In Simon COX, O Código Da Vinci descodificado, Ed. Publicações Europa-América, col. Portas do Desconhecido, nº 98, 5ª ed., Mem Martins 2004, p. 44]

Nesta Sexta-Feira 13, do mês de Agosto de 2004, conviria muito aos nossos banqueiros, que apresentam lucros chorudos em anos de crise económica, que reflectissem sobre a sua conduta no passado mês de Julho, quando fizeram sentir ao medroso inquilino do Palácio de Belém os “inconvenientes” de uma solução transparente para qualquer crise política, pelo menos numa democracia que se preze.
Quando a tibieza política infundir desprezo à opinião pública portuguesa (realidade que talvez não seja tão inverosímil como muitos julgam), então algum político, um tanto tresloucado, admito, irá mostrar aos banqueiros se o poder está na ponta das baionetas ou dos seus charutos.

Manuel Filipe Canaveira

30.7.04


Tenho defendido a ideia de que já estamos a assistir à lenta, mas inexorável, queda do Império Americano. Os que me ouvem olham-me de soslaio com cepticismo, julgando que vou citar Malcolm X para justificar a minha certeza.

Enganam-se redondamente. Longe de mim ir aos pré-históricos sessenta para convencer quem veio ao mundo já nos finais dos novíssimos oitenta. Eu, que nasci nos duros mas indómitos cinquenta (quando os europeus construíam a realidade com base na utopia) e cheguei à idade adulta nos desiludidos setenta (já ninguém julgava que a droga era um céu cravejado de diamantes), bem sei que o pior que pode suceder a um velho é ser olhado com complacência pelos jovens (ainda tenho gravado na mente a imagem do decrépito Sartre no auditório da Faculdade de Letras de Lisboa a ensinar-nos a ser revolucionários).

Não são lucubrações ideológicas mas simples testemunhos do dia a dia que me convenceram da decadência dos EUA. Numa visita recente a Amesterdão, em pleno Museum-plein (onde pululam os turistas que se dirigem ao Rijksmuseum e ao Museu Van Gogh) observei o consulado do Império rodeado de dezenas de barreiras de betão e de um exército de seguranças de olhar façanhudo e metralhadora apontada. De repente, percebi que se tirasse uma foto, sem correr o risco de ser preso por me julgarem da Al-Qaeda, talvez conseguisse convencer os amigos que tinha estado em Berlim no auge da Guerra Fria e aproveitara um momento de distracção dos guardas soviéticos. Como é óbvio, não arrisquei, porque a histeria securitária norte-americana, pelo menos desde o 11 de Setembro, pode aniquilar um pacato turista, mesmo que o Tribunal de Haia venha a provar que o coitado só achou piada à cena.

De volta a Lisboa, de novo me vejo confrontado com a decrepitude do sonho americano. Todos os dias, a caminho do trabalho, passo junto à embaixada dos EUA e, ao contrário do que sucede com a embaixada espanhola, francesa, brasileira, russa e, em boa verdade, da generalidade dos países, não vejo palácios nem parques frondosos, mas sim um “bunker” patrulhado por um autêntico exército luso-americano.

Pois é, Bin Laden e os seus sequazes já conseguiram o fundamental ao cercarem os EUA de muros de betão e arame farpado. Aquela que ainda há cinquenta anos era a terra da promissão, esperança de milhões de homens e mulheres de todo o planeta (the restless of Europe, assim os qualificava o meu manual de inglês do sétimo ano em homenagem ao seu inconformismo social), transformou-se num campo entricheirado.

Ora, um dia um cão sem eira nem beira apareceu no “stalag”. Os prisioneiros, que sonhavam com a América e com os americanos, deram ao cão o nome de Bobby, e o Bobby tomou o hábito de os cumprimentar com um alegre latido, tanto nas concentrações matinais como no regresso do trabalho. “Para ele – era incontestável – nós fomos homens.” [Emmanuel Lévinas, Nom d’un chien ou le Droit naturel, in Difficile Liberté] Mas este débil reconforto não podia durar muito: passadas algumas semanas as sentinelas expulsaram o animal importuno e o “último kantiano da Alemanha nazi” retomou a sua vadiagem.

[Alain FINKIELKRAUT, A humanidade perdida. Ensaio sobre o século XX, Ed. Edições Asa, col. Sinais (Asa Literatura), trad. de Pedro Támen, Lisboa 1997, p. 10.]

Alguém se lembraria hoje de dar ao cão um nome americano?

(Nota – A TSF acaba de noticiar um atentado suicida junto à embaixada dos EUA em Taskent, capital do Usbequistão)

MANUEL FILIPE CANAVEIRA

Imagem - Consulado dos EUA em Amesterdão (Maio de 2004)

25.7.04

Se eu lhe dissesse que o considerava um perfeito fascista, ele(a) reagiria com violência, ofendido por ver desrespeitado o seu passado anti-salazarista.

 

Se eu lhe dissesse que o considerava um perfeito fascista, ele(a) cortaria relações, ofendido por ver posto em causa o discurso neo-liberal proferido no congresso do partido.

 

Se eu lhe dissesse que o considerava um perfeito fascista, ele(a) voltar-me-ia as costas, por estar intimamente convencido dos seus ideais sociais-democratas.

 

Se eu lhe dissesse que o considerava um perfeito fascista, ele(a) perdoar-me-ia o despautério, tão convencido está da sua fé e misericórdia pelos humildes.

 

Se eu lhe dissesse que o considerava um perfeito fascista, ele(a) ......

 

Não consigo, porém, vê-lo(a) de outro modo. Fixei-lhe os olhos e tive a certeza de que, no momento das opções difíceis, irá mostrar a sua total incompreensão em relação ao direito inalienável que cada indivíduo tem  de buscar a sua própria felicidade. Nesse dia estenderá o braço e incendiará os espíritos simples gritando meias-verdades.

 

O fascismo sai do mais fundo de alguns homens. É como que uma reacção vital de um certo tipo humano que se sente ameaçado na sua alma, no seu coração, em tudo o que ama, encarece, venera, na sua própria existência, por estilos de vida e de pensamento para ele repugnantes e deletérios. Um tal estado emotivo ultrapassa em muito a tradução de uma situação económica.

 

[Roland MOUSNIER, As hierarquias sociais. De 1450 aos nossos dias, Ed. Publicações Europa-América, col. Colecção Saber, nº 80, Mem Martins 1974, p. 127.]

 

Lendo a polémica entre Erasmo e Lutero sobre o “servo-arbítrio” e o “livre-arbítrio”, percebe-se que o Fascismo, numa época em que Gentile ainda não nascera para o definir, já estava em gérmen na provinciana Vitemberga, incapaz de aceitar a cosmopolita Roterdão.

 

Manuel Filipe Canaveira


24.7.04

Puxei o exemplar do jornal regional entalado na ranhura do cacifo de correio.  Folheio-o distraidamente, lendo os títulos. “Estamos apaixonados”, afirma um futebolista presumido acompanhado da esposa loira.  “Paguem o que me devem”, clama outra loira armada em diva do pequeno écran. Entre diva e divã pouca diferença existe em termos ortográficos e, nas páginas centrais, um maricão (sub-espécie de homossexual) compraz-se todas as semanas a dar notas positivas aos mais ridículos e trapaceiros, brindando com negativas os sensaborões que descontam IRS nos rendimentos de trabalho honesto, mas por conta de outrém.
Um anúncio aqui e outro ali. Este vende uma casa com “fegão” de sala situada num penedo do Cacém. Enquanto não construírem outro prédio na frente, os compradores do vigésimo andar podem divisar, em dias de sol, o mar a cinco quilómetros. Bastam 200 mil euros e existirá mais um maravilhoso lar de “classe média” em Portugal. São 750 euros por mês, mas se o casal for jovem e só tiver 1000 euros de rendimento mensal, não há problema, porque existe sempre a possibilidade de realizar o empréstimo a quarenta anos (acabam de pagar o fogo aos setenta ou oitenta anos). Se o juro não subir - o que não é nada improvável (na opinião do governador do Banco de Portugal) - “também não há crise”, pois basta o pai de um deles ir ao banco caucionar a dívida (tem, com certeza, dinheiro para isso, porque já acabou de pagar o empréstimo da casa que comprou no centro do Cacém ou então paga 10 euros numa casa alugada pelos defuntos avós dele –do pai, entenda-se- num bairro lisboeta).
No anúncio do lado aparece a fotografia de uma vivenda com vários quartos, suite, um grande “wall” e garagem para dois carros (sendo um deles  um “clássico”), uma carrinha de 9 lugares, um jipe e uma moto Harley Davidson para ir à concentração “motard” de Faro disfarçado de “enfant terrible”, porque isto de andar sempre de fato e gravata pelos corredores da administração da multinacional também cansa e, temos de reconhecer, não dá o ar jovial que um bom neo-liberal deve ter, mormente para não ficar absolutamente igual ao liberal bigodudo e de lunetas que está no quadro da sala de reuniões do conselho de administração.
Ah! Já me ia esquecendo, a moradia com “wall” amplo custa um milhão de euros.  Pouca coisa, para gente tão distinta, mas se for necessária uma ajudazinha bancária basta mostrar ao gerente de conta o IRS com descontos sobre o ordenado mínimo nacional, juntando o amável convite para um passeio no iate que está ancorado algures no Mediterrâneo ou no Caribe. Num cantinho da página das palavras cruzadas e das adivinhas, parecendo pedir desculpa por o terem posto ali, o seguinte poema:

Naquele piquenique de burguesas
Houve uma coisa simplesmante bela
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher.............................

 
TRIMMMMMMMM. Tocou o despertador. Acordo estremunhado no melhor momento. Pouca sorte, fiquei a meio...

(Nota – Felizmente O livro de Cesário Verde encontrava-se sobre a mesa-de-cabeceira. A marca de leitura estava na página do poema De Tarde.)
MANUEL FILIPE CANAVEIRA



É a pessoa ideal para desempenhar as funções de secretária de estado da defesa. Ainda por cima é mulher. Que mais poderíamos desejar, diz Paulo Portas exultante.
Mas Pedro Santana Lopes gosta de exibir o seu poder. Afinal quem manda? E andam os papalvos a pensar que foi um simples erro ou, então, pura incompetência.
O primeiro-ministro pode não ser um bom governante, admito, mas temos de concordar que no jogo palaciano é óptimo. Com estas “finuras” de cortesão já pôs o seu amigo Paulo a fazer figura de idiota em duas ocasiões solenes.
Quanto à Teresa Caeiro, ninguém duvida que se o Pedro e o Paulo a nomeassem agora secretária de estado dos direitos dos columbófilos amadores, ela aceitava o cargo sem pestanejar, porque a sua competência está acima de qualquer dúvida e o seu apego ao serviço público é manifesto.
Por isso, pelo seu imenso mérito e, também, devido ao belo espactáculo que já nos proporcionou, daqui lhe envio, em jeito de saudação, este judicioso pensamento de La Bruyère:


Que faire d’Égésipe, qui demande un emploi? Le mettra-t-on dans les finances, ou dans les troupes? Cela est indifférent, et il faut que ce soit l’intéret seul qui en décide; car il est aussi capable de manier de l’argent, ou de dresser des comptes, que de porter les armes. “Il est propre à tout”, disent ses amis, ce qui signifie toujours qu’il n’a plus de talent pour une chose que pour une autre, ou en d’autres termes, qu’il n’est propre à rien.

[La Bruyère, Les Caractères ou les mœurs de ce siècle, Ed. Gallimard, col Folio classique, nº 693, Paris 2001, p. 46 (Do Mérito Pessoal, 10)].

Nota - Se não consegues ler em francês tanto pior para ti. Fica desde já ciente da impossibilidade de um dia poderes vir a ser “eleito” Presidente da Comissão da União Europeia.

Manuel Filipe Canaveira

23.7.04


As escolares portuguesas maiores de catorze anos, quando pressentem que um qualquer Ronaldo vai mostrar o peito depilado num rectângulo verde riscado de linhas brancas, amarram a bandeira das quinas no peito generoso e, ala que se faz tarde, vão para a porta do centro de estágios dar gritinhos histéricos.
Os pais, compassivos, abanam a cabeça e, com um sorriso algo envergonhado, tentam convencer-nos que elas também já gostam de futebol. Mas eu digo-vos que desconfio muito das meninas que dizem adorar ver vinte e dois matulões a correrem atrás de uma bola. A sensibilidade feminina não pode ter mudado tanto nos últimos dez anos.
Melhor será atribuir este entusiasmo à crise económica. Como é óbvio, as meninas já perceberam que um “matulão” daqueles vale ouro, sendo, nos tempos que correm, um passaporte seguro para o sonho consumista.
Se assim for, então a sensibilidade das adolescentes portuguesas continua a ser aquilo que sempre foi.


Se n‘outro tempo houve alguma bela
Que a amor só desse o cono penugento,
Isso foi, já não é; que o mais sebento
Cagaçal quer durázia caravela:

[Bocage, Antologia de poesia erótica, Ed. Dom Quixote, col. Biblioteca de Bolso (Literatura), n°51, organização e prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Lisboa 2003, p.77]

Aditamento (Outubro de 2005)
As "escolares" inglesas também...
As outras, que já nem escolares são, preferem os hotéis...

Manuel Filipe Canaveira

21.7.04


Vítor, o dragão, atravessou a cambalear o arco abobadado da Grande Galeria. Estendeu as mãos para o quadro mais próximo, um Caravaggio, Agarrando a moldura de madeira dourada, puxou-a para si até arrancá-la da parede, e então caiu de costas, enrodilhado debaixo da grande tela.

Traçadas em letras luminescentes, as derradeiras palavras de Vítor refulgiam em tons púrpura ao lado do cadáver: Scolari, convoca-me, sou eu que tenho a “Madona”

In "O Código Baía"

Nota (1) O Blogblague confessa que plagiou dois pequenos parágrafos do notável livro de Dan Brown O Código Da Vinci)

Nota (2) O texto está em azul porque este dragão não é verde

MANUEL FILIPE CANAVEIRA

14.7.04

Não podemos deixar de reconhecer que o primeiro-ministro indigitado ao indicar o Dr. Bagão Félix para a pasta das finanças cumpriu, estritamente, aquilo que há dias prometeu ao Presidente da República; ou seja, escolheu uma personalidade de reconhecido mérito para continuar e, até, reforçar a política que já vinha sendo seguida.
Compreende-se o dilema do Dr. Santana Lopes. Perante o sério aviso presidencial de que não seriam toleradas tergiversações em matéria de controlo das finanças públicas, o candidato à chefia do governo não podia correr o risco de preferir uma personalidade afecta ao PSD, pois o Dr. Jorge Sampaio decerto iria ficar preocupado com as tentações esquerdistas que às vezes assaltam os sociais-democratas.
Com efeito, com um ministro próximo do Partido Popular, o Sr. Presidente da República pode dormir tranquilo, pois nenhum social-democrata e, ainda menos, socialista, irá desbaratar os dinheiros públicos.
Triste sorte a minha,português da classe média,que estou condenado à ironia.
Nota (1)
Ironia – Aquilo que apresenta contraste frisante com o que logicamente devia ser.
[Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenação de José Pedro Machado, vol. VI, p. 230.]

Nota (2) O texto vai impresso com as cores do PP, porque ele é, no govertno de Santana Lopes, "O Partido" 
MANUEL FILIPE CANAVEIRA