24.10.05


“Ad Sanctos”

Na Alta Idade Média a nobreza tinha o costume de inumar os seus membros junto aos santos. Depois de uma vida dissoluta e violenta, parecia-lhes vantajoso assegurar a intercessão desses homens e mulheres virtuosos (não raro vítimas da sua crueldade) para ultrapassar os obstáculos que necessariamente surgiriam no tribunal celeste, caso Jesus, em pose de Pantocrator, se mostrasse um juíz severo.
Esta união, após a morte, do "homem religioso" com o "homem militar" é forçada, porque na sua existência histórica sempre os caminhos de ambos, pelo menos no plano doutrinal, divergiram, embora existissem, ocasionalmente (de acordo com interesses meramente conjunturais), alianças vantajosas para ambos os lados. Contudo, no essencial, o ora et labora que norteou durante os sucessivos séculos o monaquismo medieval, nunca esteve em plena síntonia com o mundo violento dos arrivistas (em regra secundogénitos das grandes casas nobiliárquicas e, por esse motivo, afastados da sucessão dos bens paternos) que viam na guerra de saque uma oportunidade de enriquecimento e ascensão social.
O mesmo sucede hoje com a multidão que acorre à praça de São Pedro a exigir, democraticamente, entenda-se, a santificação de João Paulo II, conquanto seja desnecessário dizer que a elevação aos altares de uma figura tutelar do catolicismo não pode estar sujeita ao plebiscito dos crentes, realizado de um modo aclamatório que faz jus ao paradigma pagão da democracia dos "antigos".
Mesmo sem seguir os conselhos do putativo santo, que em matéria de moral, como diria o Padre António Vieira, andou a pregar aos peixes como o seu "futuro antecessor" Santo António, as multidões que o beijaram e abraçaram nos quatro cantos do planeta, sentem-se reconfortadas com a ideia de terem estado na presença de um santo.
Estes assomos de medievalismo num mundo globalizado dão que pensar, em particular sobre o rumo sinistro que o Ocidente está a ter desde o dia 11 de Setembro de 2001.