18.4.07

O APRENDIZ
O baixa produtividade da economia portuguesa é um problema das elites, não do povo. O Zé Povinho às vezes até trabalha demasiado, mas trabalha mal, quase sempre por falta de direcção e capacidade de decisão dos que o dirigem.
Sempre tivemos, infelizmente, uma elite manhosa, que gosta muito de títulos e pouco de aprender.
Tendo em vista esta "deficiência estrutural" do nosso sistema produtivo, proponho a adopção imediata da seguinte medida: a partir de agora, um português ao nascer deve possuir desde logo o título académico de Professor Catedrático de nomeação definitiva. O desafio que lhe é lançado é o de conseguir, com esforço e mérito, ir perdendo títulos académicos progressivamente. Quando souber ler passa a professor associado, ao aprender inglês ou francês é despromovido para a categoria de professor auxiliar, e assim por diante, até ter a honra de ser o Sr. fulano de tal.
Os aprendizes de doutor e de engenheiro tenderiam a desaparecer, é certo, mas a produtividade aumentaria muito.

se nua sandice encalha
dou-o ò demo que é testudo
presume de homem sisudo
de nada sabe migalha
e anda enxovalhando tudo

D. Francisco Manuel de Melo, O Fidalgo Aprendiz (séc. XVII)

Manuel Filipe Canaveira

13.4.07

A Democracia é um assunto sério. O democrata genuíno é aquele que aceita o veredicto popular livremente expresso através do sufrágio directo, secreto e universal.
Aqueles que só arriscam auscultar a vontade do povo quando sabem de antemão que ela lhes será favorável só podem ser duas coisas; ou ditadores (Hitler chegou a chanceler através do voto e Salazar nunca receou as eleições presidenciais até aparecer a candidatura de Humberto Delgado), ou democratas de fachada.
Como é evidente, neste Ocidente neoliberal e globalizado as ditaduras dos anos trinta não têm grande futuro (apenas alimentam a retórica nacionalista de grupos minoritários), mas a DEMOCRACIA DE FACHADA já tem um presente de evidente sucesso.
Se houvesse um referendo em Portugal sobre o Tratado da União (já percebemos que não), eu votaria a favor e, estou em crer, a vitória seria do SIM, embora renhida (porque as ilusões dos anos oitenta e noventa esfumaram-se em Portugal em apenas seis anos). Contudo, apesar de tangencial, seria uma VITÓRIA FORTE, ao contrário da vitorinha pírrica que irá acontecer no dia em que os deputados do “establishment” se levantarem para aprovar, por maioria qualificadíssima, o novo Tratado da União.
Confesso, apesar de não desconhecer a necessidade urgente de proceder à reforma do sistema político da União Europeia, que preferia arriscar uma derrota, pois estes expedientes “democráticos” em breve farão perecer o ideal europeu que levou à assinatura do Tratado de Roma em 25 de Março de 1957.

É claro que todos estes problemas são difíceis de resolver e os conflitos não faltarão. Mas as crises que virão não serão mais difíceis do que aquelas que desde 1957 têm feito a história da construção europeia. Sabemos que todas foram superadas, não pela paixão – desejo de Europa- mas pela razão –necessidade de Europa. Com efeito, ao longo do tempo, cada um pode imaginar como seria difícil, para qualquer país, pôr-se à margem da União ou paralisá-la por largo tempo.

In Jean-Marie GAILLARD, Les grands jours de l’Europe (1950-2004), Ed. Perrin, col. Tempus, nº 59, Paris 2004, p. 135.

É isto que é necessário explicar ao povo português até 2009 e, depois, confiar no seu bom senso.
Manuel Filipe Canaveira