12.5.08


CASTRATI

Um desses encantadores “meninos” licenciados em economia ou gestão que usam lacinho em vez de gravata (para se distinguirem dos bancários sem serem banqueiros), que ora rondam os cinquenta anos e estão supinamente instalados na vida (programas televisivos+colaboração em periódicos editados por bancos+jornalismo ao serviço do empresariado+*+*+*+*+ são bastante “compensadores”) escrevia há uns meses num dos números da revista do Montepio Geral que a grande desgraça do desemprego dos licenciados (facto comum em todas os países ocidentais já há muitos anos), se devia à estupidez dos jovens (e dos seus progenitores) por insistirem em tirar cursos de ciências humanas, os quais, por definição, são uma garantia para a miséria económica do futuro Dr.
Como sempre, subentende-se que esses cursos são os de Sociologia, Antropologia ou outra coisa do género, que se ministram nas faculdades de letras, essa brigada do reumático que as universidades, por tradição, têm de ter. O certo é que são sempre as pobres da História e da Filosofia que merecem referência preto no branco, escamoteando a situação precaríssima das Ciências da Comunicação, para não melindrar os pouquíssimos “colegas” jornalistas que chegaram ao enorme privilégio de passarem recibos verdes. Sobre os inúmeros cursos de economia e gestão nada se diz, para não lembrar aos jovens “espertos” (e aos seus progenitores) que nos últimos anos os licenciados nestas ciências pseudo-exactas (recusam o estatuto das humanas mas estão longe de serem naturais) andam para aí a preencher os IRS dos velhinhos que têm horror à Internet e medo ancestral das repartições de finanças.
Esta ideia de orientar as escolhas dos jovens com promessas miríficas de um futuro radioso (condomínio fechado, piscina privada, topo de gama, vista sobre o Lisbon sky line…) fazem-me lembrar os pobres castrados setecentistas. Os rapazinhos de voz angelical, uma vez chegados à idade púbere, perdiam a maviosidade e, com ela, um futuro nas cortes dos príncipes e eclesiásticos. Num momento, só por causa da maldita puberdade, os sonhos de uma vida faustosa frustravam-se e, ao jovem, restava a vida de trabalho duro que, uns anos depois, o transformariam num camponês digno de ser retratado pelos irmãos Le Nain.
Mas, se fizessem uma pequena incisão nos testículos que impedisse a inconveniente afirmação da sua masculinidade, teriam, com sofrimento passageiro, acesso à felicidade de arranjarem um bom emprego a divertir os poderosos deste mundo. Muitos adolescentes, como Haydn, fugiram a sete pés do prestimoso cirurgião, mas milhares de outros deixaram-se castrar aos longo de três séculos sem, contudo, obterem a recompensa prometida; ou seja, por cada Farinelli (que até foi infeliz, apesar do êxito), existiram milhares de falhados cujo o nome a História não registou.

“Necessitas suavizar-te por intermédio de uma pequena operação que garantirá a delicadeza da tua compleição durante muitos anos e a beleza da tua voz para o resto da tua vida… desfrutando da glória depois de este pequeno assunto que te trará tanta fortuna”. O pequeno assunto que propunha Charles de Saint-Evremond ao pequeno Dery em 1687 era nada mais nada menos que a castração voluntária dos seus genitais. Não sabemos se Dery acabou aceitando, mas na Itália dos séculos XVII e XVIII praticaram-se mais de 4000 castrações anuais de rapazes com sete a nove anos que tinham demonstrado certas aptidões musicais, com o objectivo de preservar a sua voz infantil e obter os tons agudos que requeriam as composições musicais do momento. No entanto, só 10% desses rapazes conseguiram ganhar a vida com a sua voz e apenas 1% foram famosos.

[José Ángel MONTAÑES, Los castrati, (Histórias Médicas), publicado no El Pais (Salud) de 10 de Maio de 2008, p. 19]

Moral da história: faz aquilo que realmente desejas e não te deixes castrar. Nenhum guru da economia sabe o que se vai passar daqui a vinte anos. Também não lhes interessa, porque a maioria deles já estarão mortos ou reformados. Percebes?

Manuel Filipe Canaveira

11.5.08

TARTESSOS
A decadência dos regimes resulta sempre de causas endógenas que suscitam as exógenas. A decadência da democracia portuguesa, tal como ela se desenvolveu desde a nossa integração europeia (e não desde o 25 de Abril ou após o 25 de Novembro, como erroneamente se diz para mascarar a questão), é fruto do apodrecimento do “bloco central de interesses” que o Partido Socialista e o PPD/PSD arquitectaram desde o início da década de 80.
O viciamento da competição, seja ela desportiva, económica, cultural, etc., resulta da teia laboriosamente entretecida pelos optimates dos dois partidos reinantes; Mira Amaral, José Penedos ou Pina Moura são apenas os nomes mais conhecidos de um grupo relativamente numeroso (para o país pobre que somos) de gente que soube aproveitar as oportunidades que a situação lhes proporcionou.
O rotativismo, que, por questões de controlo e eficácia política, também interessa à União Europeia, não é, porém, especificamente europeu, mas sim genuinamente português. Prova-o o último quartel de oitocentos, que conduziu à agonia da monarquia por intermédio do aviltamento, na prática, do regime constitucional, já então incapaz de respeitar o espírito de um só artigo essencial da Carta Constitucional de 1826, como, aliás, hoje sucede com a Constituição de 1976, até nas suas versões revistas.
Liberalismo formal desembocou em radicalismo republicano e na manha salazarista, disfarçada de estado corporativo industrial contido nos justos limites ditados pela mente patriarcalista de um astuto aldeão. Democracia formal em plena crise não sei o que dará, mas boa coisa não será, como já se percebe.
No fundo, o problema português é que os regimes, uma vez implantados, não mudam quando já é evidente a sua inoperância; pelo contrário, apodrecem lentamente e morrem de inanidade.
O que subsiste para além da sua época torna-se anacrónico e acaba, um dia, por ser impiedosamente varrido do palco da História. Foi assim que desapareceu Tartessos há dois mil e quinhentos anos e nós, historiadores, sabemos bem que os assaltos às cidadelas só são possíveis porque estas, carcomidas por dentro, já não são mais do que uma simples aparência do que em tempos foram:

Resta apenas uma explicação lógica para a desaparição de Tartessos. A sua decadência interior. Provavelmente várias causas contribuíram para a debilitação do seu poder centralizado. É possível que o próprio reinado de Argantonio, devido à sua enorme duração, tenha desencadeado o processo de dissolução do poder. Costuma ser um processo lento em que se constata o anquilosamento das estruturas incapazes de renovar-se ao mesmo tempo que as exigências económicas, requeridas pela evolução da sociedade. A História oferece-nos casos notáveis em que a grande duração de um reinado marca o início de uma grande decadência.

[Maluquer de Motes, citado em Protohistoria de la Península Ibérica, Ed. Editorial Ariel, col. Ariel Historia, coordenação Martín Almagro e outros, Barcelona 2006, pp. 177-178]

No nosso estado actual, mais vale que esse dia chegue depressa. Não acham?

9.5.08


Muitos confundem PRUDÊNCIA com tibieza e vice-versa. É difícil perceber porquê, pois são tão distintas uma da outra que é impossível confundí-las.:
A tibieza é reverência pelo poder estabelecido, é indecisão, medo, ansiedade, desnorte, estupidez, fragilidade de princípios.
A Prudência é o contrario de tudo isso somada ao sentido da medida, porque se este faltar, então o que existe é fúria, fanatismo, insanidade.
Luciani, que foi o “martirizado” papa João Paulo I, morreu não por ser imprudente, mas por falta de tibieza. A sua concepção dinâmica de Prudência foi a causa da sua desdita, sem dúvida, não a sua ousadia.
Dizia o Pontífice Romano que a virtude da Prudência só o é se o resultado da poderação não for um encolher de ombros (indiferença), mas sim a resolução firme dos problemas e conflitos que a vida torna inevitáveis.

Concordo que a prudência deve ser dinâmica e impelir as pessoas à acção. Mas há três fases a considerar: deliberação, decisão e execução.
Deliberação significa procurar os meios que levam ao fim. Faz-se na base da reflexão, de conselhos que se pediram, de um exame cuidadoso.
Decisão significa, depois de se examinarem os vários métodos posíveis, optar por um deles… Prudência não é um eterno hesitar, suspendendo tudo e dilacerando a mente de incertea; também não é esperar para escolher o melhor. Diz-se que a política é a arte do possível e de certo modo é verdade.
Execução é a mais importante das três: prudência, ligada à força, evita o desânimo em face das dificuldade e impedimentos. É este o momento em que um homem prova ser dirigente e guia.


[David YALLOP, Em nome de Deus. A verdadeira investigação sobre a morte do papa João Paulo I, Ed. Booket, nº 5006 (Divulgação), Lisboa 2008, pp. 125-126.]

Neste Portugal de 2008 existem muito tíbios que andam a fingir que são prudentes. Essa é uma das causas do imobilismo que sufoca e domestica a Democracia, que a torna uma caricatura dela mesma.

Manuel Filipe Canaveira