8.7.08


O que admira são os vestígios de dignidade, de aprumo, enfim, deste indivíduo que o “horror económico” pôs à margem por qualquer motivo de ordem estatística e que, em dias passados, teve talvez a sua dignidade humana reconhecida e os seus direitos civis e humanos respeitados.
Os pertences estão no meio da rua, mas, com os diachos, a mãe ensinou-lhe a arrumar o quarto, incutindo-lhe a ideia de que uma pessoa não deve viver numa pocilga.
Além disso o que diriam os turistas, os empregados, os patrões… Em suma, que ideia fariam dele todos os “incluídos” que passam na mais elegante avenida de Lisboa, se vissem tudo em desalinho. Sim, porque afinal este banco é, no fim de contas, a “sua casa”, e o lar de cada um é, sempre, o espelho da sua alma.
O “dono” desta “vivenda” com jardim em condomínio aberto é, de facto, um verdadeiro príncipe, de fazer inveja aos que julgam que o são.
Não tenham dúvidas.

Essa pobreza alastrante, tão integrada em certas paisagens, pode invadir as nossas regiões sofisticadas? Uma “inconveniência” assim poderá ser possível numa sociedade tão pouco inocente, tão informada, dotada de aparelhos críticos refinados, de ciências sociais rogorosas, de um gesto pronunciado pela análise da sua própria história? Mas não se tornou ela também, por isso mesmo, por saturação, por cinismo, desilusão, às vezes por convicção, frequentemente por negligência, pouco propensa aos olhares perscrutantes, muito pouco lúcida quanto à urgência do uso da lucidez?

[Viviane FORRESTER, O horror económico, Ed. Terramar, col. Colecção 2001, 3ª ed., Lisboa 1997, p. 47.]