22.10.08


Parece claro que fomos demasiado precipitados ao declarar extintas certas profissões com as quais muitos de nós ainda ainda conviveram na tenra idade. Mas eis que a crise nos traz de volta os homens anúncio, gente que, como costumo dizer com “sabor” a século XVIII, anda “à ganhuça”. Os governos, é claro, não gostam de os ver nas ruas de Madrid ou de Londres, porque, no fim de contas, eles são o sinal mais visível do descalabro neoliberal que avassalou o Ocidente nos últimos trinta anos.
Eu aprecio-os; não que eu quisesse ser um deles ou viver os seus dramas íntimos de falhados e desiludidos, mas porque acho que dão cor às cidades nos dias de nevoeiro que cheiram a castanhas assadas. Gostava que deixassem de ser o que são por terem encontrado melhor modo de vida, mas, no entretanto, acho preferível fazerem o que fazem em vez de andarem a praticar as malvadezas que degradam as sociedades urbanas.
Entre as profissões extintas que povoam o "palácio" da minha memória pessoal, está a vendedora de queijos que entrava na “lisboetíssima” rua da minha infância a apregoar, estridentemente, há queijo saloio. Também me lembro do velhote com a sua carroça puxada por um burro a quem a minha mãe comprava os legumes, ou da leiteira com o cântaro que vertia o leite no fervedor que eu segurava. Aquele que eu mais admirava, para ser franco, era o ardina, o qual, com destreza admirável, conseguia atirar o jornal dobrado de forma engenhosa para as varandas dos segundos e terceiros andares.
Saudades; saudades a sério, tenho dos saltimbancos que na pacata rua dos Castelinhos (freguesia da Pena), estendiam o largo pano preto e cabriolavam sobre ele. O homem que engolia petróleo e lançava da boca para fora – qual dragão – labaredas de fogo, ainda me aparece em sonhos.
Gravados para sempre também ficaram os robertos da praia da Ericeira. Corríamos para ver aquela traulitada toda entre forcado e touro, rindo a bom rir. Mais tarde, ao longo de toda a década de setenta, tentei imitá-los e, com a minha troupe, palmilhámos, com a barraca de fantoches às costas, os jardins e os adros das cidades e aldeias de Portugal, para contar às crianças pobres e remediadas a história da carochinha e da princesa prisioneira.
Foi nesses anos que o povo português me entrou no coração, desalojando para sempre a reverência às chamadas elites, que a minha mãe, pacientemente, sempre me tentou incutir.
MANUEL FILIPE CANAVEIRA

16.10.08


BELEZA (simplicidade)/ ESTÉTICA (engenho)

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico,
um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

[Cesário VERDE, O Livro de Cesário Verde, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1995.]

A este poema de Cesário chamo eu belo, porque só consigo encontrar beleza nas coisas simples e vitais. Um campo de papoulas num dia primaveril é simplesmente belo. Nisso concordamos todos, ricos e pobres, facistas e comunistas, cristãos ou muçulmanos, pretos e brancos, homens e mulheres.

Uma jovem com dois seios a lembrar duas rolas é de uma exuberante beleza, porque as rolas são aves simpáticas, apesar da sua rouquidão.

Ao pastor pensativo sentado no meio do negrume de um campo estéril, chamo eu estética, porque não há pastores assim tão políticos, capazes de simbolizarem uma ideologia. Os pastores são amigos dos faunos, não dos tiranos.

Estética lembra construção de um modelo de beleza; não é, portanto, consensual, razão porque não existe Estética, mas sim estéticas, belas ou horrorosas consoante as ideologias. É por isso que muitos encontram beleza nos quadros lúgubres do mussoliniano Sironi; outros tantos dizem encontrá-la nos telas lutuosas do pacifista Otto Dix.

A intenção dos intelectuais fascistas de injectar um dimensão “moral” ou “espiritual” nos debates modernistas sobre as relações entre a política e a estética, ficou bem clara no debate sobre o romance. Num artigo aparecido na Crítica fascista, Attilio Riccio argumentava que a vião global permitida pelo romance possibilitava aos autores apresentarem a vida como qualquer coisa “de desejado e de construído”, como acção, em vez de simples espectáculo.” Sendo assim, o romance facilitaria a difusão de uma “nova atitude ética”, já que seria, ao contrário da novela e do fragmento literário, um bom veículo para o escritor promover um novo sistema de valores e de códigos de conduta.

In Ruth BEN-GHIAT, O Fascismo italiano e a estética da “Terceira Via”, in A Estética no Fascismo, Ed. João Sá da Costa, Lisboa 1997, p. 37.

As “terceiras vias” são sempre “esteticamente” duvidosas.


Iconografia - O Pastor de Mario Sironi sobre papoulas.

9.10.08


OS TEZINHOS E OS TEZÕES


Deitei-me ontem com o problemazinho da crise bancária, imaginando estratégias para convencer o meu gerente de conta a deixar-me tirar todo o dinheiro que lá tenho para o esconder debaixo do colchão, e acordei com o problema fracturante do casamento gay.
O meu amigo Juan e a sua mulher Lolita já me telefonaram há uns meses para me dizerem que o Zapatero quando viu a crise do imobiliário a cair-lhe em cima (depois de anos a fio em que os governantes andaram a tentar convencê-los que a Espanha já era tão importante como a França e não tardava a igualar a Alemanha). logo se apressou a arranjar meia dúzia de temas fracturantezinhos para esconder os fracturantezões. Como nós não precisamos de uma lei da memória, porque, ao contrário de Franco, Salazar nunca matou ninguém oficialmente (nem Humberto Delgado), temos de nos conformar e cingirmo-nos ao casamento gay.
Este tema é, sem dúvida, fracturantezão; direi mesmo mais, pensando no discurso do Sr. Presidente da República e no mano Dupont do Tintin, não podemos ILUDIR este PROBLEMÃO, porque ele é sem dúvida FRACTURANTEZÃO.
Se eu fosse um homossexual inteligente e crítico do governo Sócrates, e ainda por cima não tivesse apanhado - por mandriice minha - um dos milhares de empregos que ele diz que criou, era capaz de lhe dizer que o meu probleminha fracturantezinho era saber como resolver, de uma forma mais célere e competitiva, a questão da distribuição da Sopa do Sidónio lá na Almirante Reis.
Mas eu sou heterossexual e, por isso, juntamente com todos os cidadãos homo e hetero que andam atentos, tenho que resolver primeiro os meus inúmeros problemas fracturantezinhos, para me manter vivo e de boa saúde, porque sem isso, não me aventuro a discutir o PROBLEMÃO FRACTURANTEZÃO do casamento gay.
Cá em casa a mulher já me perguntou se o problema do nosso consórcio de periferia lisboeta tinha alguma coisa a ver com o facto de sermos ambos heterossexuais. Eu respondi-lhe; olha, primeiro deixa-me examinar o extracto do banco para ver se eu consigo chegar até ao dia do pagamento do próximo ordenado sem ter de entrar no terceiro mês adiantado. Não é por nada, mas o imposto que o governo me cobra pelo segundo ordenado, mais o imposto de selo, deixa-me possesso.
Depois de me ouvir, ela disparou amuada. És um cretino, vens-me com um probleminha fracturantezinho quando eu estava a falar de um PROBLEMÃO FRACTURANTEZÃO. Eu, que estava distraído, só ouvi as duas últimas sílabas e, entusiasmado, demonstrei com a ternura dos cinquenta que o magno problema do Sócrates nada tem a ver com a gente.

Manuel Filipe Canaveira