5.5.09


Vejo elevar a ideia do direito de superioridade da inteligência culta até ao convencimento do direito de absolvição, do esquecimento e do desprezo do justo e do injusto. Vejo desprezar tudo quanto tinha a sanção atrasadora, mas também conservadora do tempo, até ao ponto de ver esquecida a velha natureza humana, imutável no meio das mudanças do tempo.
Procurei homens civilizados pela ciência; e vou encontrá-los asselvajados pela civilização, pretendendo quase pela força da inteligência o que outrora conseguia a força bruta. Do feudalismo intelectual das escolas superiores resta-nos apelar para as comunas que se chamam escolas primárias.


[D. Pedro V, Sobre a Escola Politécnica, manuscrito da Biblioteca da Ajuda datado de 5 de Junho de 1858.]



O lamento de D. Pedro V, que o povo cognominou de O muito Amado, assenta como uma luva ao processo de tomada de poder pelos "bolonheses" nas universidades europeias em geral e, em particular, nas portuguesas, onde tudo acaba por ser muito mais triste, porque a ousadia dos oportunistas é directamente proporcional à falta de coragem cívica que caracteriza os portugueses em geral, desde sempre mais confiantes na eficácia da sujeição e do compadrio quando se trata de obter benefícios pessoais, sejam eles lícitos ou não.



Manuel Filipe Canaveira

3.5.09


DIA DA MÃE DE 3 de Maio de 2009

Numa missiva enviada à sua mãe em 28 de Maio de 1946, Adolfo Casais Monteiro escreve a dado passo:

Começo a sentir, com efeito, que nem a minha coragem é suficiente para aguentar isto. E eu tenho conseguido suportar estes 20 anos de tirania, de miséria moral, de perseguiçäo, com uma coragem tanto maior quanto tenho um imenso desprezo por isto [refere-se a Portugal]. Mas começo a näo ter forças. Há momentos em que tenho vontade física de cuspir nas pessoas, de pegar num chicote, em que chego a näo suportar a presença de ninguém. Isto é um país feio, gente feia, almas feias - dá vómitos.

Se eu hoje escrevesse uma carta à minha mãe, confesso que plagiava este trecho.