24.11.09





Contemptus Mundi


Qual anão ao ombro de um gigante, lembrando Bernardo de Chartres, assim me coloco eu quando ouço falar de George Steiner. Não há nada a fazer, após ler as suas obras guardo um silêncio profundo e, mesmo quando tropeço, aqui ou além, numa citação sua, por pequena que seja (às vezes uma simples frase), experimento uma paz interior que julgo estar próxima de uma aparência de felicidade que só o prazer intelectual pode dar em tempos de pequenez.


Desta vez foi um passo do prefácio do livro Depois de Babel que me convenceu, direi absolutamente, que neste novo paradigma universitário concebido para vender cátedras a pataco com a consciência tranquila (apenas porque os estatutos o legitimam), o melhor é o desdém por algo que em breve deixará de honrar, como por vezes ainda sucedia nos últimos anos. A Cátedra invisível vive no trabalho sólido, tudo o mais são "catedrilhas" obtidas com salamaleques cortesãos impostos pelas precedências e ritos doutorais, já esvaziados de sentido num leilão em que os licitadores são os apaniguados das fundações que agrilhoaram o SABER em centenas de formulários irrespondíveis para quem possua uma ideia, ainda que longínqua, de honestidade intelectual.

Nessa época, eu estava cada vez mais marginalizado, para não dizer isolado, no interior da comunidade universitária. O que não constitui necessariamente uma desvantagem. Nos nossos dias, uma cátedra na universidade, a aprovação dos pares, os auxílios e os louros que isso proporciona são com frequência sintomas de oportunismo e de conformismo medíocre. Um certo grau de exclusão, de isolamento forçado, pode ser uma das condições de um trabalho sólido (...) Nas humanidades, nas disciplinas do discurso intuitivo [sublinhado meu], as comissões, os colóquios e outros circuitos de conferências são um verdadeiro flagelo. Não há nada que seja mais ridículo que a litania dos colegas e dos patrocinadores desfiada nas notas de rodapé de agradecimentos de publicações insignificantes.

[Steiner, Depois de Babel, citado por José Manuel dos Santos, Expresso de 21 de Novembro de 2009, suplemento Actual, crónica "impressão Digital, p. 4]

Manuel Filipe Canaveira