3.6.10


O PRÉMIO
(de investigação em contexto universitário)

Já chegou a Portugal a “estratégia” neoliberal de premiar as dissertações de novos investigadores universitários.

Certas entidades, criadas para desenvolverem políticas económicas e sociais que facilitem a estabilização do sistema mundial em afirmação desde 1981 - e que agora se acha, pensam os seus admiradores, em inevitável (porque cíclica) crise de crescimento – usam o expediente do prémio de investigação em contexto universitário, para delinearem estratégias de condução das actividades económicas em determinado sentido e visando objectivos concretos, que todos os que vivemos nos últimos quinze anos neste “mundo em transformação” sabemos bem quais são. No caso vertente dos prémios de investigação em contexto universitário o objectivo mediato é o de criar um conjunto de condições favoráveis a um mais efectivo controlo da orientação ideológica/financeira da investigação científica e tecnológica que "merece" apoio.

A estratégia é simples. Escolhem-se os neófitos admiradores do sistema de gestão universitária em processo de implantação, analisa-se uma tese por eles recentemente escrita, transforma-se esta num livro incontornável dos novos saberes - para isso basta ter correligionários no júrí, que devem ser a maioria mas não a totalidade (porque é prudente manter as aparências) – e, num ápice, consagra-se não uma vida de investigação mas antes se designa quem terá direito a ela no precário caminho da carreira docente universitária que o novo ECDU (Estatuto da Carreira Docente Universitária) juridicamente delineou e agora se percorre desmatando terreno virgem. Nestas fases de desbravamento é sempre avisado que alguns avancem com mais segurança do que outros; não é verdade?

A Sociologia das Organizações tem estudado nas últimas décadas a importância desta estratégia de fabricação de génios para assegurar a operacionalidade do novo sistema de gestão universitária actualmente em fase de dominação (que se inspira nos processos de branding empresarial). Nesta nova etapa visa-se convencer todos os universitários do carácter intrinsecamente justo do novo tipo de gestão (na anterior, a da invasão, marcada pela mudança inopinada do quadro jurídico existente, criaram-se derrotados que urge recuperar, persuadindo-os de que estavam equivocados sobre a justeza do processo ):

External recognition may bring internal rewards. The comments of a scientist’s wife, who was herself an academic illustrate the faculty’s tendency to value external rewards. She proudly told a friend that when external reviewers reported about her husband John’s department, they said how lucky Wannabe was to have him on its faculty. On another occasion, she noted that when they were younger, several men in John’s department had competed with one another for external recognition and so for the internal goodies that external recognition might sometimes bring, including merit raises.

[Gaye TUCHMAN, Wannabe U: Inside the Corporate University, Cap. 6º, Localização 1642 – edição electrónica Kindle]

A estes prémios de investigação em contexto universitário não lhes ligo peva, porque vejo neles uma estratégia de gerenciamento da carreira no mercado do Ensino Superior, atitude que até talvez seja legítima, porque é humano querer obter a tenure. Contudo, em minha opinião, o genuíno reconhecimento externo ganha-se ao longo de uma vida e faz-se por outras vias, que nada têm a ver com marketing (distribuição e venda da mercadoria)

Manuel Filipe Canaveira